ELOCUBRAÇÕES E PERAMBULAÇÕES

Talvez você tenha lembrança da bailarina da caixinha de música. Presa à engrenagem cristalizada, a boneca roda, roda, roda. Sem jamais sair do lugar. Mas se, um dia, a bailarina pudesse fugir desse ciclo de repetição? Se conseguisse trocar o movimento da corda do mecanismo pelas cordas de um marionetista libertário? Se em vez de rodar na caixinha, ela pudesse girar por todo o Brasil?

É um bocadinho disso que acontece no SESI Bonecos do Mundo. Desde sua criação em 2003 e sua estreia em 2004, até os dias de hoje, o festival propõe abrir espaços cada vez maiores para o Teatro de Formas Animadas. Livres do condicionamento das pequenas salas, marionetes de 20 países e 23 estados brasileiros já rodaram por todas as 26 capitais do País e pela capital federal. Epopeia que abraçou a plateia de 2 milhões e 300 mil pessoas. Ocupações dos espaços públicos pelo público através da arte. Legítima caravana da democratização do acesso à cultura para toda a gente. De todas as classe sociais, idades, gêneros, religiões, raças e cores. Diversidade proporcional às possibilidades humanas, técnicas e tecnológicas que envolvem o universo dos títeres. Conversa animada entre as manifestações tradicionais e contemporâneas. Não é isso que chamam de pós-modernidade? 

Maiakovski era mestre mamulengueiro. Tanto que disse: “Melhor morrer de vodca que de tédio”. Ginu talvez dissesse diferente: “Melhor morrer de aguardente que de enfado”. Fantoche de Petersburgo ou mamulengo de Pernambuco, a experiência do boneco popular é radical. Sua irreverência, seu humor afiado em pedra de amolar faca, seu anarquismo no melhor sentido, sua incapacidade de ser politicamente correto, sua fixação em transgredir todas as leis, inclusive a da gravidade, são o seu maior patrimônio. Antítese do homem cordial, o boneco popular é do “paudório no lombório”. De paulada em paulada, ele tomba. De cachaça em cachaça, ele tomba. De rabo de saia em rabo de saia, ele tomba. Para levantar de novo, só por teimosia. “Só para cumprir com o vício”, como disse Mestre Zé de Vina.

Em 2015, finalmente, o Teatro de Bonecos Popular do Nordeste foi tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). “Infame?”, brincaria o finado Chico Daniel. Porque é assim que o joão­-redondo agradece. É assim que agradecem o cassimiro coco, o babau, o briguela, o mamulengo. Fazendo graça. Bagunçando o presépio até virar presepada. 
De pronto, a alegria pelo reconhecimento de Patrimônio Imaterial do Brasil disparou a rodar pelas empanadas. 

Tiridá: Tu visse, Benedito? Agora a gente é patrimônio imaterial. Eu trocava por uma casa.

Benedito: Iapôis! A gente agora é protegido do Iphan. Arrumaram um nome novo pro capeta, foi?

Simão: Rapai, cachaça derruba um cabra. Tombaram a gente.

Tem jeito melhor de celebrar que na própria brincadeira? Ao longo de todas as edições do Festival SESI Bonecos do Mundo, as melhores coisas que vivemos foram nas barracas dos mestres mamulengueiros. Autênticos, nos ensinam que nada é tão importante que não possa virar pilhéria. Aprendemos também a virar a dor pelo avesso e descobrir que o tecido é de chita. A rir de quase tudo e gargalhar de nós mesmos. Sem sermos hiperbólicos, isso salva uma pessoa. Ginu, Boca Rica, Solón, Baixa Guarda e Chico Daniel salvaram muita gente. Saúba, Zé Lopes, Zé de Vina, Tonho de Pombos, Waldeck de Garanhuns e Chico Simões continuam salvando.

Desde a primeira edição do festival, os bonecos populares e seus mestres encantam o SESI Bonecos do Mundo acompanhados por espetáculos de 4 continentes. Rodam novamente por muitas cidades, mas não do mesmo modo. Depois do tombamento, realizamos nossa maior homenagem ao Mamulengo: Patrimônio Imaterial Brasileiro. A exposição reverencia o Teatro de Bonecos Popular do Nordeste através de uma rara mostra museográfica e museológica com cerca de 250 títeres. A maior parte deles da coleção de Magda Modesto, em memória. Memória. Como ter um olhar preparado para os imensos desafios que vêm pela frente sem resgatar a história? 

O mamulengo faz parte da história do povo brasileiro. Um Povo em Forma de Bonecos, escreveu Fernando Augusto Gonçalves.Fisionomia e Espírito do Mamulengo, publicou ainda antes Hermilo Borba Filho. Mistura dos títeres portugueses com os bonecos e as máscaras de rituais indígenas e africanos, o boneco popular brasileiro tem o mesmo DNA cultural das nordestinas e dos nordestinos desse País. Está certo dizer que o fio misterioso da marionete é cordão umbilical invisível e poderoso. Amarrado a nó cego por mãos de mamulengueiro. Não parte. É resistência.

Passados 15 anos de sua concepção, o Festival não só resiste como existe com mais força. Em novembro de 2018, chega bonito nas cidades de Fortaleza e João Pessoa. Para todas as pessoas. Fortalezas e delicadezas  de 9 países e 10 estados brasileiros.

Então, de volta ao começo, se a tal bailarina, mesmo diante de tantas possibilidades, sentisse saudade da música da caixinha? Ahhh! Bastava ouvir a zabumba, o triângulo e a sanfona dos mestres mamulengueiros pra tristeza passar rapidinho.

Lina Rosa
Idealizadora, Curadora e Diretora do Sesi Bonecos do Mundo